Erguemos a Bandeira Vermelha! O significado histórico da bandeira do proletariado

Imagem: Pintura à óleo de Horace Vernet intitulada “Barricade dans la rue de Soufflot, à Paris, le 25 juin 1848”, em tradução livre “Barricada na rua de Soufflot, em Paris, em 25 de junho de 1848”, de (1848-49). A obra está exposta no Museu Histórico Alemão, Berlim, Alemanha e retrata os eventos de junho de 1848 durante a Primavera dos Povos. Nela, vemos a bandeira vermelha hasteada entre os revolucionários.


Em novembro de 2026, a Juventude Comunista Internacionalista iniciou a publicação de seu novo podcast, o Bandeira Vermelha. Essa nova ferramenta de propaganda é a expressão de nossos combates na juventude e na classe trabalhadora contra o capitalismo, e sua fase superior, o imperialismo e suas guerras. Um combate que é também contra as ideias alheias à luta de nossa classe, os “profetas” e seus atalhos na luta de classes. 

Nos episódios, os camaradas ouvintes  encontrarão uma análise dos acontecimentos do presente, a luta da juventude trabalhadora e dos povos oprimidos por liberdade e sobrevivência, e com a Universidade Vermelha, poderão se iniciar  nos clássicos da teoria marxista, tendo assim a base para ação. Como ensinou o revolucionário Vladimir Lênin: Sem teoria revolucionária, não há ação revolucionária.

Nessa esteira escolhemos o nome Bandeira Vermelha, que é expressão da luta em defesa do marxismo e do comunismo internacionalista. Entendemos que a melhor maneira de apresentar nosso novo podcast, é explicando a origem histórica da Bandeira Vermelha e como ela foi amplamente utilizada no movimento operário internacional. 

A bandeira Vermelha e a Luta histórica dos trabalhadores

É difícil afirmar, com exatidão, quando a bandeira vermelha surge sendo relacionada a luta de classes dos explorados e oprimidos. Aqui, para fins narrativos, vamos usar como marco as revoluções lideradas pela burguesia do final do século 18, quando esta ainda desempenhava um papel revolucionário, que colocaram abaixo a velha ordem feudal. Nestas, a bandeira vermelha estava associada às alas mais radicais e proletárias entre os revolucionários. 

Nesse processo o jovem proletariado das grandes cidades, ainda uma classe em sua infância, que na França era conhecida como os Sans-culotte, pois não tinham nada além de sua própria força de trabalho, não podendo adquirir nem mesmo o calção típico da aristocracia da época, o culotte. É partindo desse movimento  que vão se estabelecer  as primeiras organizações independentes do proletariado em que a bandeira vermelha tremulava como símbolo da ruptura com a ordem vigente. A burguesia já como classe dominante, abandona  a linha revolucionária e adota a linha conservadora. A bandeira vermelha mantém-se associada então à luta da classe trabalhadora e dos povos oprimidos. 

Pintura a óleo de Henri Félix Emmanuel Philippoteaux intitulada “Lamartine refusant le drapeau rouge devant l’Hôtel de Ville” em tradução livre “Lamartine, em frente à Prefeitura de Paris, rejeita a bandeira vermelha”, de 1848. A obra está exposta no Musée Carnavalet (Museu Carnavalet) em Paris, França e retrata um momento crucial da Revolução Francesa de 1848, também conhecida como a Primavera dos Povos, em que Alphonse de Lamartine, um de seus proeminentes líderes, discursa veementemente contra à adoção da bandeira vermelha como o novo símbolo nacional, defendida por alas mais radicais, representadas pelos Sans-culotte, em favor da bandeira tricolor (azul, branca e vermelha) já estabelecida como símbolo dos ideais republicanos e da Revolução Francesa.

 Na Comuna de Paris, em 1871, a bandeira vermelha já consolidada como símbolo do proletariado desde 1848, a volta como símbolo da raiva do proletariado em luta, e é na comuna que ela ganha o peso de símbolo de esperança, pois pela primeira vez na história, o proletariado mostrava a força de ação independente enquanto classe, como Marx disse, assaltava os céus. Mostraram para os trabalhadores do mundo inteiro que um novo mundo poderia ser construído a partir da luta de classe do proletariado revolucionário. A Comuna de Paris adota oficialmente a bandeira vermelha como símbolo da vitória dos trabalhadores e a hasteia no Hôtel de Ville, que tornou-se a sede do poder comunal. 

Litografia de Maloch intitulada “La barricade de la place Blanche défendue par des femmes lors de la Semaine sanglante” em tradução livre “A barricada na place Blanche, defendida por mulheres durante a Semana Sangrenta.” A obra está exposta no Musée Carnavalet (Museu Carnavalet), em Paris, França e representa os combates que levaram a queda da Comuna de Paris em maio de 1871.

A bandeira vermelha torna-se também   memória permanente para o proletariado, pois vermelho representava   o sangue derramado pelos Communards,  o massacre feito pelas burguesias da França e da Prússia contra os revolucionários na Semana Sangrenta, que, como podemos ver na obra de Hippolyte Lissagaray, a “História da Comuna de Paris”, todas as bandeiras eram vermelhas de sangue do proletariado naqueles dias. 

Assim, a bandeira vermelha tornou-se símbolo dos oprimidos contra a exploração, da unidade internacional da classe trabalhadora e das conquistas e derrotas, significa cada gota de sangue derramado na luta pelo fim da exploração e opressão. Um acúmulo de experiências e aprendizados de centenas de gerações em luta. 

Já o nome “Bandeira Vermelha” também teve outros usos na história do movimento operário. Entretanto, destacamos aqui aqueles ligados ao movimento operário alemão em sua luta por um partido proletário e contra a guerra imperialista, e a luta dos trotskistas brasileiros em defesa das verdadeiras ideias bolcheviques, contra o fascismo e contra a degeneração burocrática. Nessa citação sobre o que representa o legado de Rosa Luxemburgo, Lenin poderia estar descrevendo todos os camaradas revolucionários Espartaquistas, e mesmo os Trotskistas, que mantiveram a defesa dos princípios do Marxismo revolucionário:

“…Luxemburgo dedicou-se inteiramente ao trabalho na Alemanha, assumindo uma posição radical de esquerda e levando adiante a luta contra o centro e a ala direita… Sua participação na insurreição de janeiro de 1919 fez de seu nome a bandeira da revolução proletária.”

Esse nome foi dado à ferramenta de propaganda da Liga Spartacus, que viria a formar o núcleo do Partido Comunista Alemão, o jornal Die Rote Fahne (A bandeira vermelha). O jornal surgiu durante a revolução de 1918, quando um grupo de operários e trabalhadores de Berlim, ligados à Liga Spartacus, ocupou o Berliner Lokal-Anzeiger, jornal conservador e reacionário da capital alemã, e o colocou para funcionar sob controle operário. Esse jornal se tornaria, durante os meses revolucionários, a expressão das ideias dos espartaquistas junto aos trabalhadores revoltados, sendo a expressão da luta contra a adaptação e o oportunismo do Partido Socialista Alemão (SPD)¹, bem como da necessidade da revolução socialista e da república dos sovietes para a Alemanha.

Acima, imagem de um exemplar do Die Rote Fahne, órgão central da Liga Espartaquista, edição nº 8 de 23 de dezembro de 1918, com direção editorial assinada diretamente por Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo. Essa edição encontra-se, segundo informações disponíveis, na Staatsbibliothek zu Berlin (Biblioteca Estadual de Berlim).

O jornal nasceu da luta viva dos operários, e seu nome simboliza todo o esforço dos espartaquistas, em sentido mais amplo, de todos os revolucionários que, frente à traição dos social-democratas, mantiveram firme sua fé na revolução do proletariado, mantendo viva e tremulando a bandeira vermelha do comunismo revolucionário. Assim como também representa a luta dos espartaquistas contra o imperialismo e os horrores das guerras capitalistas. As expressões disso estão em figuras como Rosa Luxemburgo, que em sua obra  buscou entender e as bases do imperialismo e sua necessidade militarista como engrenagem indispensável de funcionamento do capitalismo na época do capital monopolista , e Karl Liebknecht, que em 1914, se colocou contra os créditos de guerra – orçamento militar para a primeira guerra imperialista – , indo contra inclusive seu próprio partido à época, o SPD, sendo o único dentre 110 deputados no parlamento alemão a votar contra,  declarando, o que viria a ser a palavra de todos os revolucionários contra o imperialismo e as guerras: “Nossos verdadeiros inimigos estão dentro de casa, em nosso próprio país, são nossa burguesia” e “Façamos guerra contra a guerra”. 

Durante os anos do regime nazista, o Die Rote Fahne foi um dos poucos jornais de esquerda que continuou sendo difundido, ainda que na clandestinidade. Nos anos 1960, especialmente em 1968 e nos anos posteriores, esse nome ressurgiu com a juventude da Alemanha Oriental, que se organizou contra o caráter anti-revolucionário e antidemocrático do regime burocratizado na Alemanha Oriental, e expressou o sentimento do proletariado em luta contra esses regimes por todo o “bloco socialista”, mas também a juventude de todo o mundo que se colocou em revolta contra o capitalismo naquele ano.  

Número 04 de 1968 do Bandeira Vermelha, órgão do Movimento Comunista Internacionalista

No Brasil, também tivemos um jornal com esse nome. O Bandeira Vermelha foi um jornal do Movimento Comunista Internacionalista (MCI), que teve como redator principal Herminio Sacchetta. Ele se filiou ao Partido Comunista Brasileiro em 1932 e a partir de 1937 foi expulso sob a acusação de organizar uma “dissidência trotskista”. Após sua prisão durante o Estado Novo, Sacchetta fundou o Partido Socialista Revolucionário, seção brasileira da IV Internacional. O jornal Bandeira Vermelha existiu entre os anos de 1967 a 1969, e foi marcado por uma crítica aos métodos burocráticos do Partido Comunista Brasileiro (PCB), e a sua degeneração a uma política de revolução por etapas e de colaboração com a suposta “burguesia nacional libertadora”, assim como, fez uma luta contra a linha de uma oposição armada à ditadura militar descolada das massas. 

Uma bandeira vermelha para nosso tempo 

No momento em que lançamos esse podcast, uma nova onda de levantes contra as mazelas do sistema capitalista toma conta do mundo. Milhões de jovens e trabalhadores, enfrentam os programas de austeridade, os efeitos da crise  em cada país, a repressão aos mais básicos direitos conquistados por nossa classe e guerras localizadas  que o imperialismo impõe sobre nós. Dos levantes populares no Nepal aos do Irã, a soma desses fatos, afeta de maneira mais intensa a juventude trabalhadora, e é essa, livre das derrotas do passado, que primeiro se joga na luta pela mudança desta realidade. Muitos  estão pela primeira vez, adentrando no palco  da luta de classes, e na ação prática, vão se formando, e procurando uma bandeira para chamar de tua, uma bandeira que seja a expressão de um programa de mudança.

A posição de Trotsky de que a crise da humanidade se resumia à crise da direção revolucionária, se torna clara em nosso momento histórico. Na falta de um partido, uma direção e de um programa de mudança. Toda essa nova camada de combatentes buscam métodos para agir, e para entender o mundo, no próprio calor do movimento. Nesse processo, e na falta dessa direção, surgem as ideias alheias à nossa classe, como as de oposição entre gerações, que nada tem a ver com a luta histórica da juventude e do proletariado. Entretanto, não existe caminho fácil na história para a construção do partido revolucionário, arma essencial da construção de um novo mundo. Na medida que as tensões de classe aumentam, os movimentos e revoltas de classe se tornam cada vez mais frequentes, a juventude  se forja e entende os limites das instituições e programas reformistas.

Lenin sempre afirmou a importância da juventude para a construção do partido, e para ele a nossa tarefa é : “estudar, estudar e estudar”. Assim é possível entender o mundo, bem mais além de sua aparência, mas em sua essência. Entender, e se apropriar dos métodos históricos de nossa classe, que são fruto da experiência do acúmulo prático e teórico de dezenas de gerações. Não apenas como exercício abstrato, mas entender o mundo para transformá-lo, que é o essencial da práxis de qualquer revolucionário, em qual lugar do mundo e em qualquer época. Esse movimento histórico tem na bandeira vermelha do comunismo, sua expressão.

Esse é o objetivo do podcast Bandeira Vermelha e de nossa organização. Mostrar que a saída para a crise do capitalismo, está na luta pela construção de um partido revolucionário, através da aliança operária-estudantil. E a bandeira desse partido, não está na divisão por gerações, cores, fronteiras e identidades, mas sim na histórica bandeira vermelha do comunismo revolucionário e internacionalista. 


Notas:

¹ Fizemos a tradução do nome do partido, no original Sozialdemokratische Partei Deutschlands, mas mantemos a sigla para melhor entendimento do leitor.  

Facebook Comments Box