Adoecimento mental em massa: escala 6×1 e a máquina capitalista de moer trabalhadores

A crise do sistema capitalista pesa brutalmente sobre os ombros daqueles que são explorados diariamente para garantir o lucro da burguesia: nós, trabalhadores. A cada dia, vemos nossas liberdades, nossos sonhos e até nossa saúde serem sacrificados em nome do capital. O adoecimento assume diferentes formas conforme nossa posição nas camadas da classe trabalhadora, mas a verdade é uma só: estamos todos exaustos. É hora de erguer um mundo onde o trabalho seja um meio para a vida e a vida tenha valor – uma sociedade genuinamente comunista, construída pela classe trabalhadora em escala internacional.

Se conversarmos com qualquer trabalhador ou trabalhadora sobre as condições de trabalho na indústria, no comércio ou nos serviços, a resposta será unânime: ninguém dirá que as coisas vão bem, que há tempo para viver e descansar. Isso é um privilégio exclusivo dos ricos! Para nós, a realidade é outra — exaustão, sobrecarga e adoecimento generalizado. O chamado “Burnout” é cada vez mais comum, apesar das dificuldades de diagnóstico. A depressão, a ansiedade, o estresse crônico e diversas outras condições psíquicas, resultado direto da exploração implacável de nossos corpos e mentes. Esse cenário não apenas se agrava, mas se manifesta cada vez mais cedo entre os jovens e em toda a classe trabalhadora.

Quantos de nós, exaustos, levantamos todos os dias para trabalhar, mesmo sabendo que passamos mais tempo no trabalho do que em casa? Mas não temos outra escolha, pois temos que conseguir o sustento. Mesmo conscientes da pilha de tarefas e compromissos que ficam para trás porque uma jornada exaustiva nos impede de viver plenamente. O sistema nos suga até o limite, e a água está começando a ferver. Cada vez mais, jovens e trabalhadores explorados percebem que as atuais condições de trabalho promovem um adoecimento em massa e que a redução da jornada pode permitir um desenvolvimento pessoal, intelectual e mental digno.

Recentemente foi noticiado que o Brasil teve a maior quantidade de afastamentos por ansiedade e depressão desde 2010. Um total de 470 mil brasileiros, apenas entre aqueles que tem carteira assinada, pediram afastamentos por motivos de saúde mental. Os dados são do Ministério da Previdência Social do ano passado. Isso sem falar em outros milhares que sequer tem carteira assinada e, portanto, precisam dar um jeito mesmo com total esgotamento mental e psicológico.

Desemprego, precarização e saúde mental

A revolta contra a escala 6×1, canalizada pelo movimento Vida Além do Trabalho (VAT), abriu um espaço fundamental para que uma parcela significativa de trabalhadores exaustos pudesse compartilhar suas experiências e se reconhecer na luta de outros que enfrentam ou enfrentaram condições semelhantes. Através das redes sociais, surgiram relatos sobre exploração extrema, humilhações, privações, ameaças e a consequente deterioração da saúde mental, fruto de experiências traumáticas no trabalho. Esse cenário se agrava diante do desespero causado pelo desemprego, que impõe um peso brutal sobre as famílias, forçando muitos a permanecerem em empregos degradantes, ultrapassando todos os seus limites físicos e emocionais.

Atualmente, os dados oficiais apontam 7,2 milhões de desempregados, mas sabemos que a realidade é ainda mais alarmante. Esse número desconsidera os trabalhadores informais, precarizados e superexplorados, cuja sobrevivência depende de jornadas extenuantes e sem qualquer garantia de direitos. Esse imenso contingente de trabalhadores forma o chamado exército industrial de reserva, descrito por Marx, uma massa de desempregados e subempregados que o capitalismo mantém em condição de miséria para pressionar aqueles que ainda possuem um posto de trabalho a aceitarem salários cada vez mais baixos e condições cada vez mais degradantes. Dessa forma, o sistema capitalista, incapaz de oferecer uma vida digna à classe trabalhadora, perpetua esse ciclo de sofrimento e exaustão, garantindo que a exploração continue a pleno vapor em benefício da burguesia.

Além disso, ao impor o isolamento através da rotina exaustiva de trabalho, o capitalismo reforça o individualismo e a solidão como condição permanente. Como consequência, cresce o uso de antidepressivos e ansiolíticos, muitas vezes sem acompanhamento adequado, apenas para que os trabalhadores consigam continuar se sujeitando à exploração. O adoecimento em massa não pode ser analisado isoladamente do contexto social.

A constante pressão por não ter tempo para lazer, para a família, amigos, cuidados pessoais e, principalmente, para o descanso, leva a um desgaste mental severo. Isso desencadeia um fenômeno chamado “patologização da vida”, no qual sofrimentos decorrentes da exploração do trabalho são transformados em transtornos individuais, tratados com medicalização, na maioria dos casos. Em vez de atacar a raiz do problema – a exploração capitalista –, esse processo apenas lucra com o sofrimento dos trabalhadores, enquanto os mantém domesticados. Afinal, quem não sente suas dores, não reclama delas! Soma-se a isso o fato de que os equipamentos de atendimento psicossocial públicos e gratuitos tem sido cada vez mais atacados e precarizados, além de não ter quadro técnico suficiente para a atual demanda de adoecimentos, outra consequência nefasta da crise capitalista.

Opressões e saúde mental

A pressão para cumprir tarefas exaustivas e a incerteza sobre o futuro digno tem gerado uma ansiedade generalizada para a classe trabalhadora e para a juventude, especialmente entre as mulheres trabalhadoras, que muitas vezes são chefes de família e vivem sob o medo permanente do desemprego e da precarização. Quando essa pressão se torna insuportável, instala-se a depressão, acompanhada pela sensação de inutilidade e fracasso – intensificada por uma cobrança social sufocante. A sociedade exige que sejamos, ao mesmo tempo, funcionários exemplares que nunca faltam ao serviço, que evita ir ao médico para não pegar atestado e que, aos poucos, adoece em silêncio, sem qualquer estrutura de apoio. Ao manter os trabalhadores sobrecarregados, doentes e culpados, o capitalismo garante sua submissão a salários menores e condições precárias.

Para as mulheres, a dupla e tripla jornada – filhos, casa e trabalho – impõem um cenário de constante exaustão, sem tempo para nenhum descanso. Na folga do trabalho, cuidados com a casa. No intervalo entre um turno e outro precisa preparar alimentos, limpar a casa, lavar roupas e cuidar dos filhos, idosos ou familiares doentes. A sobrecarga com esses cuidados domésticos destrói sua saúde, privando-a de descanso real. Seu único dia livre na semana não é para lazer ou recuperação, mas para colocar em dia as tarefas domésticas acumuladas. O resultado é um corpo e uma mente em permanente estado de exaustão, manifestado por insônia, dores crônicas, crises de choro e baixa imunidade, tornando-as mais vulneráveis a doenças.

Os dados de afastamentos no Brasil mostram que 64% das pessoas que pediram afastamentos no ano passado, são mulheres acima de 41 anos com quadros de ansiedade e depressão. Essas mulheres permaneceram, em média, 3 meses afastadas. Mas se comparadas com os homens, receberam menos, ficando menos dias afastadas que os trabalhadores do sexo masculino. Essa é outra faceta dos baixos salários recebidos pelas mulheres em relação aos homens nas mesmas profissões. O levantamento do IBGE mostrou que em 82 áreas as mulheres ainda recebem menos que os homens.[1]

Compreendemos que essas questões não são isoladas, mas sim consequências de um sistema de exploração e escravização da mão de obra desde sua origem. O capitalismo se desenvolveu sobre a escravização de milhões de pessoas, repartindo as riquezas do mundo entre a elite burguesa, enquanto promovia genocídios e perpetuava um adoecimento psicológico, a cada geração. A escravidão foi abolida contra a vontade de seus defensores da época, que pertenciam à mesma camada reacionária que hoje sustenta a escala 6×1 e a manutenção do capitalismo.

Desde os tempos da escravidão, a população negra tem sido a espinha dorsal da acumulação capitalista, ora enquanto mão de obra escravizada, ora empurrada ao subemprego ou ao desemprego permanente. O racismo tornou-se um mecanismo funcional ao capitalismo, garantindo que a mão de obra negra permanecesse subjugada, relegada às posições mais precarizadas e vulneráveis.

O caso de Sonia Maria, uma mulher surda e não alfabetizada que foi mantida em situação análoga à escravidão por mais de 40 pela família de um desembargador em Florianópolis e que estava desaparecida para a família desde os 9 anos, gerou indignação nas redes sociais ao evidenciar mais uma vez o caráter escravocrata do capitalismo e a ineficiência da justiça burguesa em combater tal situação. Sonia infelizmente não é a última.

Da mesma forma, os povos indígenas, historicamente expropriados de suas terras e violentamente perseguidos, seguem sendo explorados como mão de obra barata no agronegócio e na mineração, setores que avançam sobre seus territórios com o respaldo do Estado burguês.

Além deles, os imigrantes e refugiados de países explorados são incorporados ao mercado de trabalho sob condições análogas à escravidão, ocupando os piores cargos e enfrentando uma criminalização constante. Uma demonstração das péssimas condições de imigrantes e refugiados está demonstrada no caso de Moïse Kabagambe, jovem do Congo, que fugiu da guerra civil e encontrou no Brasil uma barbárie – foi violentamente assassinado nos quiosques do Rio de Janeiro, a pauladas. Seu corpo, foi encontrado amarrado a uma escada.

O impacto dessas condições brutais corrói a saúde mental, não apenas dos sujeitos trabalhadores, mas de suas famílias, e transforma a existência em uma luta constante pela sobrevivência em meio a um futuro incerto e violento. A ansiedade e a depressão se tornam cada vez mais comuns em um mundo onde o custo de vida dispara, a estabilidade é inexistente e a felicidade se torna um luxo inacessível. O estresse gerado pela insegurança alimentar, pelo medo da repressão estatal e pela degradação ambiental empurra milhões ao esgotamento físico e emocional, enquanto a burguesia lucra com essa exaustão, vendendo paliativos como medicamentos, coach mentirosos que prometem as pessoas o enriquecimento rápido e promessas vazias de bem-estar, ao mesmo tempo que retira direitos conquistados através do movimento dos trabalhadores.

Da reforma trabalhista ao aumento do Burnout

A Reforma Trabalhista de 2017, sancionada pelo governo Temer, aprofundou esse cenário ao flexibilizar direitos historicamente conquistados pela classe trabalhadora. Entre as mudanças mais cruéis, está a ampliação da terceirização, que precarizou ainda mais as relações de trabalho, impondo jornadas extenuantes e direitos reduzidos ou eliminados. A implementação da jornada intermitente, por exemplo, fez com que os trabalhadores passassem a viver em um estado de incerteza permanente, sem garantia de renda fixa e muitas vezes sem acesso a direitos básicos como férias remuneradas e décimo terceiro salário.

Esse quadro fez disparar os índices da Síndrome de Burnout nos últimos anos, que segundo a psicologia, é um distúrbio psíquico resultante do estresse específico relacionado ao trabalho, que se manifesta em três dimensões principais: exaustão emocional para lidar com as demandas diárias; pelo esgotamento extremo, falta de energia e dificuldades para lidar com as demandas diárias; despersonalização, refletida em uma atitude negativa, cínica ou indiferente em relação ao trabalho, colegas e clientes; e redução da realização profissional, que se traduz em sentimentos de ineficiência, baixa autoestima e perda de motivação no ambiente de trabalho. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Burnout foi incluído na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) como uma manifestação ocupacional, diretamente ligada às condições de trabalho. Dados da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) indicam que cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros sofrem com a síndrome, tornando o Brasil um dos países com mais casos revelados, ficando atrás apenas do Japão.

Muitas dessas instituições propõem medidas como a redução da carga horária, aumento do tempo de descanso, ambientes de trabalho salubres, pausas regulares e acompanhamento psicológico. Como trabalhadores e comunistas sabemos que qualquer melhoria nas condições de vida e trabalho são necessárias e que é nosso dever lutar por elas.  No entanto, não temos ilusão de que os capitalistas é que vão promover tais melhorias. Apenas a nossa luta coletiva e organizada pode pôr fim a escala 6×1, a reforma trabalhista e ao aumento dos casos de burnout e outros adoecimentos mentais ligados ao trabalho.  

A luta pelo fim do capitalismo e da escala 6×1

Ao analisarmos a história e o funcionamento do capitalismo, surge a pergunta: é realmente possível que o trabalho seja menos exaustivo quando a burguesia nos explora até a última gota em nome do lucro? A resposta é evidente. A emancipação humana só pode ser conquistada na luta contra a burguesia, pois os parasitas que dominam a sociedade não abrirão mão de seus privilégios. Essa luta está diretamente ligada à condição da classe trabalhadora, que permanece aprisionada à exploração capitalista enquanto esse sistema existir. A verdadeira libertação só pode ser alcançada por meio de uma economia planificada, com a expropriação dos capitalistas e a abolição da propriedade privada dos meios de produção.

É por isso que a luta em defesa da saúde mental da classe trabalhadora passa pela defesa tanto das reivindicações imediatas quanto das históricas. Os comunistas defendem a redução da jornada de trabalho para 30 horas semanais, sem redução salarial! Pelos finais de semana livres! Foi o que demonstramos no movimento das fábricas ocupadas no processo de ocupação da Cipla, em Joinville, onde foi possível reduzir a jornada de trabalho sem redução salarial, mostrando que não precisamos de um patrão. Essa é a verdadeira luta em defesa da saúde mental e física da classe trabalhadora. Só assim poderemos dedicar mais tempo às nossas famílias, ao descanso, aos estudos, ao lazer, ao esporte etc.

No entanto, essa mudança não será conquistada facilmente, e não podemos confiar nas instituições da democracia burguesa para garanti-la. Mesmo nos países em que a classe trabalhadora conquistou melhores condições de vida e trabalho, essas conquistas são ameaçadas a cada crise e no mundo inteiro há um avanço contra os serviços públicos e da ampliação da exploração do trabalho. Enquanto esse sistema existir, a brutalidade da produção seguirá esmagando a classe trabalhadora, intensificando sua miséria, seu esgotamento e sua alienação.

É por meio da luta organizada que podemos garantir condições verdadeiramente humanas de trabalho e de vida. Arrancar dos patrões o fim da escala 6×1 é o primeiro passo é para alcançá-lo é preciso uma mobilização permanente, sem nenhuma ilusão nas tramitações do parlamento. Através da auto-organização da nossa classe, podemos aumentar a consciência dos trabalhadores, desmanchando qualquer ilusão nesse sistema e avançar no caminho da transformação radical que precisamos para enfim conseguir alcançar a felicidade – o fim da exploração capitalista e uma sociedade cuja economia seja planificada e controlada democraticamente para satisfação das nossas necessidades.


[1] Disponível em: https://g1.globo.com/trabalho-e-carreira/noticia/2025/03/10/crise-de-saude-mental-brasil-tem-maior-numero-de-afastamentos-por-ansiedade-e-depressao-em-10-anos.ghtml

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