Aprendizados da greve das universidades estaduais de São Paulo

No primeiro semestre deste ano ocorreram importantes greves nas universidades estaduais paulistas (USP, Unesp e Unicamp). Essas mobilizações são parte de uma situação nacional e internacional marcada pela crise capitalista, pela ofensiva imperialista e pelas demonstrações de disposição de luta por parte de jovens e trabalhadores em diferentes países.

No Brasil, a greve dos técnicos-administrativos das universidades federais exigiu o cumprimento dos acordos firmados após a greve de 2024. No bojo dessa greve, vimos as mobilizações dos estudantes e dos professores. Ao mesmo tempo, aconteceram várias greves localizadas dos servidores municipais, por exemplo, em São Paulo, em Florianópolis e em Belo Horizonte.

No caso de São Paulo, a greve foi inicialmente deflagrada pelos trabalhadores técnicos e administrativos da USP e se desenvolveu, puxando, como em uma esteira, a luta dos estudantes das universidades estaduais de São Paulo: USP, Unesp e Unicamp. A greve dos técnicos e administrativos das instituições federais está, em sua maioria, encerrada após deliberações de base e acordos assinados com as reitorias.

A greve foi unificada?

Os técnicos administrativos da USP exigiram a isonomia em relação a gratificações dadas pela reitoria apenas ao corpo de professores. Com 10 dias de greve, o acordo final assinado com a reitoria prevê igualar o recurso destinado as gratificações para as duas categorias. E, nesse ínterim, é que os estudantes entraram em greve na USP, exigindo uma série de reivindicações, mas as principais, e que levaram o movimento ao seu desenvolvimento e à sua ampliação, foram, de fato, as demandas por permanência estudantil. Várias denúncias circulavam pelas redes sociais contra as condições precárias tanto da moradia estudantil, que é o Crusp, na USP, como também da falta de uma qualidade digna, mesmo mínima, nos restaurantes universitários, com a presença de larvas, parafusos, enfim, todo tipo de condição indigna na refeição dos estudantes.

Uma das principais reivindicações foi o aumento da bolsa de permanência, da bolsa de auxílio estudantil, chamada PAPFE. A reivindicação estudantil foi que ela tivesse ampliação para um salário-mínimo paulista (cerca de R$ 1.800). Na verdade, a reitoria recusou essa reivindicação, propondo um aumento de cerca de R$ 40 em relação ao valor atual, para, no máximo, R$ 912. Os estudantes, em um primeiro momento, recusaram essas propostas iniciais de aumento da bolsa de auxílio permanência e mantiveram a greve.

A reitoria, em dado momento, encerrou as mesas de negociação e não apresentou nenhum tipo de proposta nova para esse conjunto de estudantes, dando início a ameaças contra a greve, com penalizações aos estudantes, como a manutenção do calendário letivo, a aplicação de provas, a atribuição de faltas e a exigência de trabalhos.

Mesmo sob essas condições de repressão e perseguição, a greve conseguiu mobilizar uma grande quantidade de estudantes: foram 100 cursos e 43 unidades. Pelo seu caráter proletário, pelas reivindicações — o aumento para o salário-mínimo paulista do valor da bolsa de permanência estudantil, melhorias e ampliações nas condições da moradia e também a reivindicação pela melhoria da qualidade da alimentação servida nos restaurantes universitários —, são demandas extremamente proletárias e que atingiram uma grande parte dos estudantes dos campi da USP.

A greve foi encerrada com conquistas parciais. No caso da USP, encerrou-se após 54 dias. O auxílio da bolsa de permanência teve aumento para R$ 912,00, o que, na prática, repõe as perdas inflacionárias desde 2022, com mais alguns compromissos de melhoria na moradia; bandejão aos finais de semana nos campi do interior; linhas de ônibus circulando aos finais de semana no interior; e um compromisso para um projeto de moradia na EACH (Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP).

Verificamos que existiu um descompasso entre as greves das três categorias, cada uma acontecendo em um momento diferente e por reivindicações diferentes, o que nos permite concluir, sem nenhuma dúvida, que essa greve não foi unificada / Imagem: Daniel Garcia, Adusp SSind

Se observamos a sequência de fatos, vemos que os TEAs (técnico-administrativos) entram em greve. Quase concomitantemente ao fim da greve dos técnicos-administrativos, os estudantes começam as paralisações e, do meio para o fim da greve dos estudantes, os professores entram em greve, reivindicando reajuste salarial e se mantendo em greve após o fim da greve estudantil. Há um descompasso entre os três setores, resultado da falta de uma unidade real de pautas conjuntas e da inexistência de um comando de greve unificado, eleito desde a base pelas assembleias de estudantes, técnicos e professores.

Verificamos que existiu um descompasso entre as greves das três categorias, cada uma acontecendo em um momento diferente e por reivindicações diferentes, o que nos permite concluir, sem nenhuma dúvida, que essa greve não foi unificada. A falta de unidade das três categorias em luta foi um fator que a reitoria utilizou, jogando com essa divisão, atendendo rapidamente à reivindicação dos técnicos e, assim, isolando os estudantes; depois, encerrando a negociação com os estudantes e reprimindo-os com ameaças para forçá-los a sair da mobilização. Isso, por si só, levou a que várias faculdades importantes saíssem da greve.

Embora essas categorias possam ter tido reivindicações totais ou parciais atendidas, a reitoria jogou com a flagrante divisão do movimento. Houve desgaste, principalmente na greve estudantil, que ficou a maior parte do tempo isolada das demais categorias. O desgaste do movimento estudantil poderia ter sido evitado se houvesse uma unificação real entre as três categorias, com um comando de greve unitário eleito pela base, com reivindicações unitárias entre estudantes, professores e funcionários técnicos e administrativos, o que permitiria que todos entrassem e saíssem juntos da greve, aumentando o moral, ampliando a força, a coesão e o poder de negociação das três categorias com a reitoria.

Na Universidade de Campinas (Unicamp), houve o encerramento da greve no dia 12 de junho. Na Unicamp, a greve teve uma característica diferente, com calendários unificados. Em relação às pautas, cada um dos três setores elaborou sua própria agenda, mas, ao mesmo tempo, tendo pautas em comum.

A reitoria emitiu uma carta de compromissos com os estudantes. O movimento estudantil fez a avaliação e a considerou insuficiente. Assim, foi decidida a realização de uma ocupação da Diretoria-Geral de Administração da Unicamp no dia 8 de junho, exigindo, então, novas contratações, a entrega de obras que estavam paradas, a concessão do auxílio sem critérios de desempenho ou critérios meritocráticos, a concessão dos reajustes dos professores e o repúdio ao PL 439 de 2026, projeto de lei apresentado pelo deputado estadual Guto Zacarias, do Partido Missão e membro do MBL, que pretende criminalizar toda e qualquer atividade do movimento estudantil dentro das universidades.

O que foi divulgado nas redes sociais do DCE da Unicamp é que 95% das pautas da lista de reivindicações apresentadas pelos estudantes foram atendidas pela reitoria e que a desocupação do prédio da DGA ocorreu no dia 13 de junho, de maneira pacífica. É preciso notar que há uma clara mudança de orientação por parte das reitorias após a péssima repercussão da repressão na USP. A repressão levou a que uma série de entidades do movimento estudantil e dos trabalhadores se pronunciasse contra a repressão e sobre as pautas da greve, o que, em conjunto com a repercussão da Marcha ao Palácio, obrigou a mudança de tática. Ao invés da repressão, o diálogo e a negociação, para evitar o desgaste do governo Tarcísio, para quem as reitorias das três universidades paulistas são aliadas.

Ao mesmo tempo que os estudantes afirmam ter alcançado 95% das pautas, os professores, que exigiam 7,39% de reajuste, receberam 3,92% de reajuste salarial, e os técnico-administrativos permaneceram paralisados por mais tempo e retornaram ao trabalho em 6 de julho, com acordo para o reajuste salarial de 3,92%, reajuste no valor diário do vale-refeição, aumento no auxílio-saúde, entre outras conquistas.

No caso da Unesp, em um dado momento, houve um impasse nas negociações com o Cruesp, o conselho de reitores, e a divulgação do corte de novos concursos públicos, devido à “crise orçamentária” que a reitoria tem alegado, levou à unificação dos três setores na greve. Os estudantes do Instituto de Artes estavam ocupando o prédio desde o dia 22 de abril. Com o referido anúncio, os calendários dos três setores passam à unificação a partir de 20 de maio. As reivindicações centrais foram o reajuste salarial, o aumento das bolsas para o salário-mínimo paulista, a revogação imediata da suspensão dos concursos e o combate à criminalização dos estudantes.

A Polícia Militar realiza a reintegração de posse da reitoria da USP, ocupada por estudantes em greve, em 10 de maio. A ação foi marcada pelo uso de bombas, cassetetes e violência contra os manifestantes / Imagem: Guilherme Farpa, Divulgação

A Unesp tem a característica de ser uma universidade com campi espalhados por 24 cidades em diferentes pontos do Estado de São Paulo, e isso influenciou a greve. Das 24 cidades com campi da Unesp, 10 estavam paralisadas. O fato de que, em meados de junho, as greves na USP e na Unicamp já haviam sido encerradas deixou o movimento da Unesp, que já é ilhado, ainda mais isolado. A desocupação do Instituto de Artes ocorreu no dia 2 de junho e contou com a presença da PM, a mando da reitoria, mas de forma pacífica. Como explicamos acima, no caso da Unicamp, a tática das reitorias muda após a má repercussão da repressão na USP.

A greve se arrastou até o início de julho, com professores e técnicos saindo no dia 29 de junho por proposta oferecida pelo Cruesp, e os estudantes mantiveram a greve até o dia 8 de julho, quando o campus de Bauru decidiu, em assembleia, pelo encerramento. A greve estudantil terminou com um termo de compromisso assinado pela reitoria para melhorias na permanência estudantil e com um comitê para fiscalizar o cumprimento do compromisso assinado.

De maneira geral, o que podemos concluir é que a greve das universidades estaduais paulistas não foi uma greve unificada. Embora tenha similaridades em pautas proletárias de permanência estudantil e reajuste salarial, cada setor entrou e saiu da greve por suas próprias reivindicações e em momentos totalmente diferentes. Observamos uma grande disparidade entre as conquistas da greve, e a única pauta unificada que mobilizou a maior parte dos estudantes, o reajuste das bolsas de auxílio para o salário-mínimo paulista, não foi conquistada.

Jovens e trabalhadores têm sindicatos distintos, é certo. No entanto, é preciso considerar que esta greve tinha um potencial de unidade muito elevado pelo caráter de suas pautas e que estas poderiam ter sido levadas à frente com um comando de greve unitário, eleito desde a base, que não substituiria a atuação dos sindicatos estudantis e dos trabalhadores já existentes, mas que atuaria em seu conjunto, coordenando a unidade da luta desde a base até as mesas de negociação.

Em nossa opinião, é preciso que esse balanço seja feito de maneira clara e objetiva. A greve não foi unificada porque não teve um comando de greve unificado, eleito pela base, nem pautas unificadas dos três setores e das três universidades. As pautas locais e de cada setor foram sobrepostas às pautas unificadas com capacidade de unidade e mobilização. Se houve algo unificado nessa greve, foi um método utilizado nas três universidades: o método da ocupação. Retomaremos esse ponto em breve.

Autonomia universitária e autonomia financeira

Essas questões remetem ainda ao papel do Fórum das Seis. O Fórum das Seis é uma entidade que reúne representações dos sindicatos de professores, técnicos e estudantes da USP, Unesp e Unicamp, bem como das Fatecs e das Etecs do Centro Paula Souza. Em tese, esse organismo, surgido do seio dos trabalhadores e estudantes, teria a vocação para cumprir um papel na unidade real da greve. Mas, na prática, o Fórum das Seis se mostrou incapaz de organizar essa unificação. Por que isso aconteceu? O que argumenta o Fórum das Seis? Que cada universidade tem um orçamento diferente e problemas orçamentários diferentes; então, não tem como haver uma única mesa de negociação para as três, exatamente por conta desse problema da autonomia local das universidades.

A resposta para essa pergunta tem a ver com o debate sobre a autonomia universitária e a autonomia financeira das universidades. Esse é um debate que introduzimos na brochura “A luta pela educação pública, gratuita e para todos: questões do movimento estudantil”:

“A autonomia universitária é compreendida pelos marxistas como a autonomia de pensamento, de produção de pensamento científico, político e artístico no interior da universidade. É a liberdade de aprender e ensinar, pesquisar e divulgar o conhecimento. Aqui entram bandeiras como a defesa das liberdades democráticas (expressão, manifestação e organização) de professores, estudantes e técnico-administrativos e a liberdade de cátedra. A luta pela autonomia universitária não inclui a responsabilidade da comunidade acadêmica (professores, estudantes, funcionários) na gestão ou administração do orçamento da universidade. Como vimos no Manifesto de Córdoba, não havia a inclusão de uma autonomia financeira, isso porque defendemos a educação pública e, portanto, as universidades são dependentes financeiramente do Estado. Ao mesmo tempo, o reconhecimento de que elas são dependentes financeiramente do Estado tem, por outro lado, o reconhecimento de que esse Estado, a serviço da burguesia, estrangula o orçamento das universidades e, portanto, devemos lutar por todo o dinheiro necessário para a educação e a ciência e contra qualquer corte.

Se, por um lado, defendemos a autonomia universitária, por outro, também defendemos uma universidade voltada aos interesses da classe trabalhadora e da humanidade, o que não está dissociado da luta pela educação pública, gratuita e para todos e da federalização das universidades que recebem dinheiro público, do fim do vestibular, de vagas para todos nas universidades públicas e de todo o dinheiro necessário para a educação e a ciência públicas.”

O orçamento das universidades estaduais paulistas, hoje, é pautado pelo ICMS, mas, devido à reforma tributária, esse orçamento, proveniente desse imposto, será modificado para o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), e discute-se uma forma de transição para manter, digamos assim, a mesma alíquota que hoje essas universidades recebem.

Quem tem sido responsável por essa elaboração é o Fórum das Seis, e, pelo que verificamos, a proposta do Fórum das Seis é uma espécie de alíquota baseada no novo imposto, que não tenha perdas em relação à atual alíquota. Há muitos anos, fazemos a crítica de que as universidades estaduais paulistas tenham o seu orçamento atrelado a um imposto, que é variável e depende da arrecadação e da situação econômica do Estado. Também deixamos claro que a proposta elaborada pelo Fórum das Seis, de apenas manter algo equiparado à atual alíquota, é uma bandeira defensiva, que tenta evitar perdas, mas que verificamos ser completamente insuficiente. Essa alíquota recebida pelas universidades estaduais já é insuficiente frente à expansão que as universidades tiveram sem que os orçamentos acompanhassem essa expansão, e é por isso que vemos todas essas estruturas caindo aos pedaços. Lembremos que a greve de 2023 da USP foi relacionada à falta de contratação de professores, levando à extinção de certos cursos. O que as universidades públicas paulistas vivem é um desmonte. Portanto, manter o atual orçamento é manter o desmonte.

Vale lembrar que os impostos são pagos pelos trabalhadores. Somos nós, trabalhadores, que pagamos os impostos. Em cada bala que compramos, há imposto embutido e, portanto, os impostos deveriam servir para satisfazer as necessidades de saúde, de educação, de assistência e de todos os serviços públicos de que precisamos. A reivindicação que a Juventude Comunista Internacionalista apresenta é todo o dinheiro necessário para a educação pública, e não apenas esta ou aquela alíquota.

A infantilidade esquerdista e a liderança pequeno-burguesa da greve

É preciso fazer um balanço sobre as diferentes ocupações que ocorreram na greve das universidades estaduais paulistas. Na USP, a ocupação aconteceu em dois momentos distintos. A primeira aconteceu no dia 10 de maio, num momento de impasse do movimento, em que havia certo declínio na adesão à greve. Algumas faculdades, a partir das ameaças da reitoria, começaram a sair da greve. É nesse contexto de impasse que ocorreu a primeira ocupação, no saguão da reitoria, que foi seguida por uma reintegração de posse com a presença da Polícia Militar, utilizando toda a violência, com cacetetes, bombas e corredor polonês contra os estudantes. Após a reintegração de posse, a reitoria aumentou novamente o tom e publicou uma nota em que ameaçava cancelar o semestre dos estudantes, inclusive cancelar a matrícula dos calouros.

Para muitas pessoas e organizações políticas, pode parecer que a ocupação da reitoria trouxe mais adesão ao movimento, já que, dias depois, ocorreu a Marcha ao Palácio com milhares de pessoas nas ruas, mas, na verdade, a ocupação ocorreu nesse contexto de declínio do movimento dentro da USP.

Já a segunda ocupação ocorreu nos blocos “K” e “L” da administração central no dia 8 de junho, dia da assembleia que encerrou a greve. Autodenominada “Dia do Revide”, a segunda ocupação foi dirigida por um grupo chamado Frente Independente Marimbondo, que se compreende como um grupo do “movimento estudantil revolucionário”; na verdade, um grupo ultrassectário e adepto da ação direta. Ela ocorreu com poucas dezenas de membros, enfrentando, com paus, socos e cadeiras, a guarda universitária e a PM, numa ação ainda mais sectária.

Ambas as ocupações têm em comum o fato de ocorrerem em momentos distintos de declínio do movimento grevista e em situações de impasse e esgotamento da adesão à greve. Ao mesmo tempo, compartilham a infantilidade esquerdista e o caráter pequeno-burguês de sua liderança, isto é, poucas dezenas ou centenas de radicalizados que pretendem substituir a ação de massa dos estudantes, “vingadores” da repressão.

Se, por um lado, essa greve teve um caráter proletário por suas pautas e, exatamente por isso, se desenvolveu, alcançando uma grande quantidade de cursos e unidades da USP, Unesp e Unicamp, teve uma direção pequeno-burguesa adepta da tática da ação direta como meio de um pequeno grupo eletrizar as massas e arrastá-las para a ação. No entanto, vemos que o resultado de ambas foi exatamente o contrário: o distanciamento da massa de estudantes, que não se vê representada por esses métodos e que sofre a repressão e a criminalização por responsabilidade daqueles que se aventuram ou acobertam esses métodos.

Ambas as ocupações têm em comum o fato de ocorrerem em momentos distintos de declínio do movimento grevista e em situações de impasse e esgotamento da adesão à greve. Ao mesmo tempo, compartilham a infantilidade esquerdista e o caráter pequeno-burguês de sua liderança / Imagem: Guilherme Jeronymo, Agência Brasil

Esse caráter vanguardista também se evidenciou na assembleia dos professores da USP que deflagrou a greve, com cerca de 350 docentes num universo de 4 mil, o que levou a que essa greve não acontecesse, na prática, por falta de adesão.

Há que se refletir ainda sobre os motivos que levam a uma decisão de ocupação. No caso de uma fábrica em que ocorre a ameaça de fechamento e de demissão, a ocupação serve para salvar os empregos e o parque fabril, como foi o caso do Movimento das Fábricas Ocupadas. No caso das escolas, ameaçadas de fechamento durante o governo Alckmin, em São Paulo, em 2015-2016, a ocupação serviu para barrar o fechamento das escolas e a reorganização escolar. Uma ocupação do Congresso Nacional, por exemplo, poderia servir para impedir uma votação contrária aos interesses dos trabalhadores ou para fazer aprovar o fim da escala 6×1. Ainda assim, há que se levar em consideração que mesmo uma pauta justa, como a defesa dos empregos ou das salas de aula, não é justificativa política para a ocupação por uma minoria, à revelia do conjunto. A greve com ocupação é o último recurso dos trabalhadores e dos jovens na defesa de suas reivindicações e coloca em questão o controle da fábrica, da escola e da universidade; portanto, expressa um grau de consciência política elevado. Quando a ocupação é realizada por uma minoria, esse caráter político não é alcançado e termina por isolar os ocupantes da massa dos jovens e trabalhadores.

Agora, na situação em questão, em que havia um impasse da luta por parte da intransigência da reitoria e pela falta de unidade real das categorias, dos calendários e das pautas, qual o sentido de realizar uma ocupação? Algumas lideranças argumentaram que seria para retomar o “diálogo”, isto é, para fazer retomar as mesas de negociação. No entanto, a forma mais efetiva de retomar o “diálogo” é ampliar o próprio movimento, com mobilizações de base, e não substituir os estudantes por meio da ação de um pequeno grupo. Foi um erro tático que levou a que, ao final da greve, a proposta da reitoria anterior à ocupação (de reajuste do PAPFE) fosse aceita, levando a um grande desgaste do movimento.

Além disso, a liderança pequeno-burguesa da greve estudantil incluiu pautas identitárias no conjunto das reivindicações da greve. Pautas como cotas trans e vestibulares indígenas são pautas que, no discurso, afirmam trazer “diversidade” para a universidade, mas que, na prática, não significam uma política real e de massas de acesso e permanência. Não questionam a existência do vestibular, que é o principal funil para a entrada de todo jovem que quiser continuar seus estudos após concluir o ensino médio, independentemente da cor da pele, da orientação e identidade sexual, da etnia, da religião ou da nacionalidade. Na verdade, essa pauta reforça a existência do vestibular e não se conecta com a exigência proletária da permanência originalmente exigida pela massa de estudantes.

É preciso superar as concepções pequeno-burguesas e ultrassectárias e forjar uma liderança proletária com métodos proletários para levar a uma batalha política e econômica pelas demandas proletárias e justas levantadas pela greve.

Unidade contra Tarcísio é unidade para eleger Haddad?

No dia 20 de maio, a Marcha ao Palácio contra Tarcísio reuniu milhares de estudantes e trabalhadores da educação nas ruas de São Paulo. Foi resultado da necessidade real de unidade por parte da juventude e dos trabalhadores contra as políticas aplicadas no Estado de São Paulo. A marcha representou, na nossa opinião, um acerto desse movimento de greve, que buscou, em primeiro lugar, sair para fora dos muros das universidades e, em segundo lugar, concentrar os problemas universitários de permanência ou de salários na figura do governo do estado.

Para que seja compreendido, as universidades paulistas têm seu financiamento ligado ao ICMS. Uma alíquota desse imposto é subdividida entre as três universidades e, a partir disso, elas têm os recursos para fazer a gestão das necessidades, seja de contratação, de melhorias etc. A Marcha ao Palácio teve a característica de apontar o governo Tarcísio como responsável, por meio da sua política de privatizações e de sucateamento dos serviços públicos, pela crise orçamentária das universidades e de exigir do governo uma resposta.

É interessante observar que, no começo da greve, Tarcísio foi a público e afirmou que estudante não deveria fazer greve, que a arrecadação com o ICMS só cresce e que, portanto, o orçamento das universidades também só cresce, contradizendo as demandas da greve. No entanto, depois da marcha, o discurso e a tática em relação à greve mudam completamente. Tarcísio adotou um discurso com uma base totalmente eleitoral, afirmou que as pautas são justas e que cabe aos reitores fazerem a gestão dos recursos recebidos. Ao mesmo tempo, os reitores passaram a negociar com os estudantes e a não reprimir as ocupações.

Em nossa opinião, a marcha cumpriu um papel importante ao se conectar com o sentimento existente na classe trabalhadora, na juventude, de que as suas revoltas em relação à violência policial, por exemplo, à violência letal contra as mulheres e à crise das universidades, às privatizações etc., tudo isso tem uma raiz em comum, que é a política privatista aplicada por Tarcísio.

Após a marcha dos estudantes, o governador Tarcísio de Freitas mudou o tom em relação à greve. Se antes criticava o movimento, passou a afirmar que as reivindicações eram justas e transferiu aos reitores a responsabilidade pelas negociações, que avançaram sem repressão às ocupações / Imagem: Adunesp, Divulgação

Ao mesmo tempo, há organizações que convocaram a marcha e defenderam que basta “votar certo” e “escolher um aliado” para o governo do Estado nas próximas eleições para que tudo esteja resolvido, indicando desde já sua tática eleitoral contra a suposta ameaça fascista. Para esses, é preciso votar em Lula e, no caso de São Paulo, em Haddad, para derrotar o bolsonarismo, como se a política de ajuste fiscal e de sucateamento, privatização e concessão dos serviços públicos aplicada pelo PT tivesse algo de substancialmente diferente daquela aplicada por Bolsonaro.

Nada é mais falso. Lula sequer se manifestou sobre a greve das estaduais porque as instituições federais passam por problemas similares; inclusive, as bolsas de auxílio federais são menores que a da USP, somado ao contingenciamento da educação anunciado recentemente. Haddad, que foi inclusive procurado por lideranças da USP, não fez nada além de declarar apoio às pautas e se pronunciar contra a repressão. Além disso, movimentos similares por permanência estavam começando a se desenvolver em universidades como a Uerj e a UFRJ. O governo social-liberal do PT não poderia tocar nesse vespeiro.

Qualquer um, seja um governo direto da burguesia, como Tarcísio, seja um governo social-liberal, como o de Haddad ou Lula, é incapaz de atender às reivindicações dos trabalhadores e estudantes porque são governos de gestão da crise do capitalismo que, em sua fase imperialista, impõe uma política militarista e de destruição dos serviços públicos. É exatamente por isso que as entidades estaduais e nacionais dos estudantes atuaram para impedir a unificação do movimento de greve paulista com as lutas por permanência estudantil e reajuste salarial em outras universidades e instituições federais.

O papel da UNE: uma política para blindar Lula em ano eleitoral

A participação da União Nacional dos Estudantes (UNE) e da União Estadual dos Estudantes (UEE) nas greves foi localizada, atuando de maneira a isolar as greves dos estudantes paulistas dentro de São Paulo e não nacionalizar essas greves para as universidades federais nem unificá-las com as greves estaduais de outras universidades, como a Uerj, o que poderia se converter em um forte movimento nacional pela permanência estudantil.

Denunciamos essa política, majoritariamente empregada pela UJS, que é a Juventude do PCdoB, com apoio de outras organizações, como uma política que buscou blindar o governo Lula dos questionamentos em relação à educação pública levantados pelas greves.

No contexto das greves, ocorreu o 72º Conselho de Entidades Gerais da UNE e, durante sua realização, foi anunciado o contingenciamento de R$ 1,6 bilhão da educação promovido pelo governo Lula. É uma política que o governo Lula vem acumulando de ataques à educação. Isso não ocorre apenas em relação às universidades, mas à educação pública como um todo. E o que fez o Coneg da UNE? Convocou um calendário fantasma de mobilização pela educação.

O governo Lula, a partir da consulta pública, manteve um dos eixos centrais do Novo Ensino Médio, que é a política de parcerias público-privadas. Tarcísio, por exemplo, a partir da brecha aberta por essa lei, está promovendo concessões e parcerias público-privadas para a gestão e a construção de novas escolas em São Paulo, bem como o avanço da militarização das escolas, com mais de 100 escolas previstas para serem militarizadas no estado. Essa não é uma política isolada de Tarcísio, mas está sendo aplicada por diferentes governos estaduais a partir das parcerias público-privadas do Novo Ensino Médio e do fato de que, nacionalmente, a militarização foi descontinuada, empurrando para os governos dos estados a continuidade ou não dos projetos.

Lula, nacionalmente, mantém a agenda que Bolsonaro iniciou, que é a política de cortes na educação e de contingenciamento para poder pagar a dívida interna e externa. É uma política que, em vez do teto de gastos, muda apenas o nome para arcabouço fiscal. Assim, mantém-se o arcabouço fiscal, que serve exatamente para isso: tirar recursos da educação, da saúde e dos serviços públicos para entregar às mãos dos banqueiros e parasitas do mercado financeiro, esfolando as universidades, por exemplo.

Então, dentro desse contexto, a política da União Nacional dos Estudantes, da direção que está à frente dessa entidade, que é a maior da América Latina, é uma política de blindagem e, portanto, de quinta roda do edifício burguês. Uma política criminosa de blindagem do governo Lula e que atrela o movimento estudantil a uma política de gestão da crise do capitalismo e de ataque à educação pública.

Conclusões

Estamos diante de uma conjuntura internacional de aumento da pressão imperialista contra os povos de todo o mundo. O aumento da militarização tem efeitos que não estão distantes da nossa realidade: expressam-se no aumento dos orçamentos de repressão e de “defesa” em detrimento dos serviços públicos; no aumento dos juros e das amortizações da dívida interna e externa; e no bloqueio de recursos da educação, da saúde etc. Ao mesmo tempo que o imperialismo aumenta a pressão, os povos resistem e lutam. No caminho de sua luta, deparam-se com diferentes lideranças, métodos e programas e fazem a experiência prática, extraindo as lições não por compreenderem o programa e os métodos, mas pela efetividade de seus resultados e pela forma como podem poupar suas energias. É tarefa da vanguarda revolucionária concentrar os aprendizados e ajudar a classe trabalhadora e sua juventude em suas lutas imediatas e históricas.

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